
Este ensaio descreve alguns acontecimentos que revelam formas pelas quais o preconceito é veiculado em São João del Rei. Em seguida, teceremos comentários acerca de algumas condições históricas que desencadearam o preconceito. Consideramos as condições histórias um terreno fértil para a composição da exclusão do diferente e, em conseqüência, para o desenvolvimento da negação da população negra, que subsistem até hoje, alem de desqualificação social destes. A existência destes preconceitos acarreta e amplia os contrastes econômicos e sociais, uma situação incompatível com o país que desejamos construir.
Esta pesquisa estrutura-se em quatro partes:
A primeira é uma breve introdução sobre o racismo no Brasil em geral.
A segunda, que apresenta os dados históricos, refere-se a influencia que a nossa historia exerce sobre nosso modo de pensar e agir sobre determinado assunto (racismo).
A terceira parte apresenta os dados relativos ao racismo no século XXI e nas escolas, nos alertando que a sociedade é preconceituosa, logo a escola também será.
A quarta, finalmente, apresenta uma análise preliminar desses dados e oferece algumas questões que, cremos nós, deverão ser objeto de reflexão por parte deste grupo que analisar estes fatos.
Esperamos, assim, estar contribuindo para o aprimoramento do processo de inclusão e a abolição do racismo na nossa sociedade, de modo a assegurar uma interação entre todas as etnias.
1. Racismo às escuras.
“Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite”( Nelson Rodrigues)
Tendo em vista o especialista em denunciar as farsas da qual, muitos acreditam, Nelson Rodrigues aponta mais um fato que se esconde por detrás das aparências, uma crença de que se vive no Brasil uma democracia racial. E pesquisando ainda mais este assunto, afunilaremos o contexto abordado para pesquisá-lo apenas em São João del Rei. Como esperado a idéia de uma democracia racial também esta presente nesta região, sendo assim negado sempre a existência de um preconceito, tornando-se difícil de ser compreendido e combatido o racismo.
Sabe-se da discriminação, mas não se quer falar a respeito. Diversas pesquisas, como a apontada pela Revista Veja (10.01.1996) ocorreu uma constatação unânime em advertir que o preconceito é sistematicamente considerado como característica do “outro”. Chegou a resultados extremos - 97% das pessoas afirmaram não ter preconceito e 98% dos entrevistados diziam conhecer, sim, amigos e parentes próximos que têm preconceito racial.
Assim sendo, as pessoas possuem consciência do racismo, entre tanto, acreditam que este é um problema do outro.
Em São João del Rei o preconceito não é abertamente afirmado, dificultando a elaboração de leis que favoreçam sua reversão. Existe ainda aquela velha ideologia que somos “um verdadeiro exemplo para as outras nações” e que vivemos num país em que as diferenças são respeitadas. Em função disso, a população negra encontra-se em uma situação mais precária de vivencia com relação à população considerada branca. Tornando assim as condições sociais de vida dos negros um processo dificultado e lento.
Tento em vista tais referencias, buscamos, neste ensaio, compreender o racismo na nossa região, com o intuito de subsidiar discussões e decisões futuras acerca dos casos mais freqüentes.
2.Conhecendo o passado para entender o presente
O antigo Arraial Novo do Rio das Mortes deu origem à cidade de São João del-Rei. Os primeiros sinais de ocupação européia da região remontam à 1701. Na região do atual centro da cidade, os primeiros sinais de ocupação arraial remontam a 1704, quando o paulista Lourenço Costa descobre ouro no ribeirão de São Francisco Xavier, ao norte da encosta da Serra do Lenheiro. Nessa época, Lourenço Costa trabalhava como escrivão no Porto Real da Passagem, local onde Antônio Garcia da Cunha, genro e sucessor de Tomé Portes del-Rei, explorava a travessia do rio das Mortes. Usando como mão-de-obra o escravo.
O negro era considerado escravo, um simples “objeto” de barganha para a população portuguesa. Assim foi semeado e regado a ideia de que o negro não passava de um instrumento de trabalho e essa ideologia foi sendo revigorada ano após ano.
Estudos e descrições de testemunhas revelam que os negros viviam como se fossem animais. Não tinham nenhum direito, e pelas Ordenações do Reino podia ser vendido, trocado, castigado, mutilado ou mesmo morto sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Eram tratados como uma propriedade privada.
Suas alimentações eram pessimas, uma situação de calamidade alimentar, pois os senhores muitas vezes nem comida davam aos seus cativos. No final do século XVIII Vilhena descreve a situação dos escravos no particular:
[...] dever-se-ia de justiça e caridade providenciar sobre o bárbaro e cruel e inaudito modo como a maior parte dos senhores tratam os desgraçados escravos de trabalho. Tais há que não lhes dando sustento algum lhes facultam somente trabalharem no domingo ou dia santo em um pedacinho de terra a que chamam “roça” para daquele trabalho tirarem seu sustento para toda a semana acudindo somente com alguma gota de mel, o mais grosseiro, se é tempo de moagem.
Muitos estudiosos, como Ademar Vidal, afirmam que a comida era jogada no chão, e os escravos se lançavam em um salto de gato, para apoderar-se da comida misturada misturada com grãos de areia.
A jornada de trabalho era de catorze a dezesseis horas sob a fiscalização do feitor, que não admitia pausa ou distração. O julgamento do escravo era na maioria das vezes feito na própria fazenda pelo seu senhor, havendo casos de negros enterrados vivos, jogados em caldeirões de água ou azeite fervendo, castrados, deformados, além dos castigos corriqueiros, como os aplicados com a palmatória, o açoite, o vira-mundo, os anjinhos (também aplicados pelo capitão-do-mato quando o escravo capturado negava-se a informar o nome de seu dono) e muitas formas de coagir o negligente ou rebelde.
Sendo assim constatamos que o racismo tem sua origem desde a chegada dos escravos na nossa região, ao qual foram tratados como animais. Desenvolvendo uma consciência de que o negro não merecia respeito ou qualquer sentimento de compaixão ou pena, nos levando a considerá-los mercadorias sem importância significativa.
Sobe estes aspectos o negro não tinha nenhuma liberdade, não podiam entrar nas igrejas, pois estas eram feitas apenas para os brancos. Não podiam se divertir, pois seus donos os exploravam ao máximo e não lhes restava tempo para essas regalias.
A abolição da escravatura brasileira foi um processo lento que passou por várias etapas antes sua concretização. Criaram-se leis com o intuito de retardar esse processo de abolição como a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários entre outras, as quais pouco favoreciam aos escravos.
Quando finalmente foi decretada a abolição da escravatura, não se realizaram projetos de assistência ou leis para a facilitação da inclusão dos negros à sociedade, fazendo com que continuassem a ser tratados como inferiores e tendo traços de sua cultura e religião marginalizados, criando danos aos afrodescendentes até os dias atuais.
3.O século XXI
Os séculos já não são os mesmos, o escravo já não está mais presente, mas o racismo ainda está entre nós.
Em São João del Rei os negros ainda enfrentam muitas dificuldades para superar as discriminações na sociedade em geral. Mesmo com o reconhecimento da igualdade formal perante a lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 que determina que irão responder por racismo aqueles que praticam os crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, assim sendo o presidente da república e o Congresso Nacional decreta e sanciona as leis de punições a estes, mas na prática essa lei não vigora com êxito e os negros não conseguem facilmente as mesmas posições que os brancos, principalmente no plano econômico.
O racismo na nossa região continua ocorrendo de maneira velada no meio social nas últimas décadas. Mesmo após a promulgação da constituição de 1988, que considera o racismo como “crime inafiançável e imprescritível”, ainda se lê anúncios de empregos em jornais procurando pessoas de “boa aparência” o que, na realidade significa uma recusa quanto à contratação de negros.
3.1.O preconceito nas escolas
Pesquisas revelam que as escolas são dominadas por preconceitos. Analisando está afirmação na nossa região constatamos que essa afirmação é verídica.
O preconceito e a discriminação estão fortemente presentes entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários das escolas. Os que mais sofrem com esse tipo de manifestações são os negros e partos, pois são ignorados pela sociedade. Além disso, pela primeira vez, foi comprovada uma correlação entre atitudes preconceituosas e o desempenho na prova. Estudiosos acreditam que as notas são mais baixas onde há maior hostilidade ao corpo docente da escola.
Mias de 80% das pessoas presentes nas nossas escolas gostariam de manter algum nível de distanciamento social de pobres e negros.
Mas temos em mente que o preconceito não é isolado. “A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura", afirma o pesquisador e economista José Afonso Mazzon, professor de Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA).
Levando em conta todos os fatores históricos, psicológicos e sociais, essa pesquisa só faz confirmar o que nós já pensávamos que o preconceito, esta enraizado na nossa sociedade, e para cortar o mal pela raiz deve começar por dento de nós mesmos.Há solução para o problema que naturalmente seria em longo prazo, a sociedade deveria promover a desconstrução desse padrão valorizado ao extremo, da superioridade entre quaisquer raças, e estimular comportamentos éticos construindo um novo homem valorizado pelo que é pelo que promove em seu meio.
Mas isso é totalmente utópico, pois a sociedade inverteu seus valores, vale mais o dinheiro do que o sentimento.
“Enquanto a cor da péle for mais importante que o brilho dos olhos, sempre haverá guerra.” (Bob Marley)
4.Racismo É Burrice (Gabriel Pensador)
É nada mais nada menos do que a estupidez se propagando
Nenhum tipo de racismo - eu digo nenhum tipo de racismo - se justifica
Ninguém explica
Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que é uma herança cultural
Todo mundo que é racista não sabe a razão
Então eu digo meu irmão
Seja do povão ou da "elite"
Não participe
Pois como eu já disse racismo é burrice
Referências bibiográficas
PNLEM,João Paulo Mesquita. Nova História Integrada.Campinas, São Paulo, 2005.
Revista VEJA, 1996.
Vagalume.uol.com.br. Letra da música de Gabriel O pensador.
As leis do Brasil, leis contra o racismo nº7.716, de 5 de janeiro de 1989.



